
Há alguns anos atrás minha família com sua enxurrada de primos, tios e tias se reunia aos domingos na casa de meus avós. Não havia necessidade de marcar horário ou confirmar presença no almoço. Era certo a presença de todos lá. Eu, que morava dois andares acima da casa de meus avós, somente precisava descer as escadas. Tudo era um atrativo além dos dotes culinários de minha avó. Até os jogos de futebol pareciam ter mais emoção para meus tios quando assistidos lá.
Naquela época, o jornal impresso era o meio mais confiável e disponível de obter informação. Aos domingos, quando o jornal vinha preenchido de diversos cadernos, se formava uma fila familiar atrás dele. Tinha aqueles que queriam determinados cadernos. E outros que faziam questão do jornal inteiro. Era uma ansiedade para que chegasse a vez. E penso que como eu devia haver outros que desejavam que alguém desse prioridade a algum programa televisivo ou uma conversa. Assim, poderia ser logo aproveitado um dos hábitos que desfruto desde cedo: a leitura. Contudo, a leitura, que é uma abstração solitária, às vezes tornava-se nesse dia um processo coletivo. Pois, diante de uma notícia quente, quentíssima era impossível deter o processo de leitura coletiva. E todos se emparelhavam para conseguir ler um pedaçinho do texto e quando não havia jeito alguém fazia a leitura em voz alta.
Eram outros tempos. Os textos eram mais elaborados, pois não havia a crise no universo impresso. Havia espaço para diversos colunistas, diversas formações de pensar. A construção do cotidiano, arte que os jornalistas se detêm, era baseado nos fatos relevantes para a sociedade e cidadãos. Como disse o jornalista Nirlando Beirão em uma palestra recente em Salvador “O jornalismo brasileiro tornou-se histérico e não histórico”. Recentemente uma professora subiu em palco onde uma banda de pagode apresentava-se e dançou o seu hit “todo enfiado”. Filmada por diversos celulares sua performance foi parar no site Youtube e na capa de um jornal local.
Além de sentir saudades dos domingos em família, sinto falta dos jornais. Aqueles jornais que mesmo com seus defeitos, mesmo com seus partidarismo, não sofriam de crise de identidade. Que na guerra pela notícia não especulavam, nem faziam sensacionalismo da vida alheia.
6 comments Setembro 18, 2009
Está no ar: Revista Antimatéria
3 comments Agosto 28, 2009
O Brasil na ilegalidade da vida

Esse blog anda tão abandonado quanto a capital baiana. Essa ausência é decorrente de dois motivos básicos: dedicação à Revista Antimatéria, que em breve estará na rede, e porque perdi a esperança de expor minha indignação social. Vez em quando escrevo sobre minha vida, mas não foi especificamente para isso que este blog existe.
Pois então, não é de hoje que ando desiludida com o nível de pobreza e violência que Salvador se encontra. Nem devia estar escrevendo essas linhas. Por mais que existam outras pessoas com o mesmo pensamento que eu, a maioria dos leitores do Anafilático no mínimo pensa “lá vem essa menina com a velha conversa de desigualdade social. Só podia ser jornalista mesmo”. Porém, caros amigos, pelo que me parece, os jornalistas estão mais interessados em pagar pau para as celebridade do que divulgar a previsão feita pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) de que cerca de 33 mil jovens brasileiros, entre 12 e 18 anos, poderão ser assassinados até 2012. Segundo o estudo, os jovens negros têm 2,6 vezes mais possibilidades de serem mortos do que os brancos.
A divulgação da morte prevista desses milhares de jovens, em sua maioria negros e pobres, não foi capaz de estimular nenhuma medida contra a violência, o incentivo à educação ou qualquer coisa que diminua as chances desses homicídios acontecerem. Além dos jornalistas, muitos outros não estão querendo conta com a vida da população brasileira. É visível que o Brasil é feito para matar e não fazer viver. Nesse país morte de pobre não gera notícia. Vivemos num país onde não há vagas nos hospitais públicos, onde médicos escrevem no braço de mulheres grávidas o número do ônibus que devem pegar para irem a outro hospital.
Num país com medidas tão ilegais à vida, não é importante que cerca de 1.046 milhão de soteropolitanos (50% da população de Salvador) espera o dia em que um pouco de holofotes irão escancarar sua situação de pobreza ou indigência. Que esperem sentados em suas lonas sem esgotamento sanitário. Pois, pelo que já constatamos nos 509 anos dessa nação, o Brasil é um país que olha para poucos. Somente na capital baiana o poder público esqueceu 670 bolsões de miséria que fazem de Salvador a segunda cidade mais pobre do Nordeste, perdendo apenas para Teresina (PI).
É por isso que os níveis de violência tornaram-se alarmantes. O país está se confrontando a cada dia com sua própria omissão sócio-cultural e educacional.
Nessas condições nem Jesus Salva.
6 comments Agosto 12, 2009
Onde há fumaça tem cigarro…

Quando eu fumei pela primeira vez ainda estava no início da adolescência. Não tinha ninguém em casa e achei que era o momento ideal para fazer o que já vinha planejando. Peguei um cigarro nas coisas de minha mãe, fui para o quarto e fumei de frente para um espelho. Me ver fumar é uma das lembranças mais impactantes que tenho. Outra cena também marcante foi a cara de meu pai ao chegar de sopetão e me ver fumando. Acho que ele ficou mais assustado do que eu. O susto não adiantou. Percebi uma sensação simbólica e falaciosa entre o ato de fumar e a liberdade. A partir daquelas baforadas eu me proclamei dona de mim e de minhas vontades. Doce ilusão, logo veio o vício.
O cigarro possui 4.700 substâncias tóxicas disponíveis em cada tragada que vão se acumulando e deteriorando os órgãos ao longo da vida. Desses milhares de conteúdos, o trio-ternura composto pela nicotina (que chega no cérebro mais rápido que a cocaína), alcatrão (o grande responsável pelo canceres) e monóxido de carbono (CO) (a mesma fumaça que sai do seu carro) fazem do cigarro um produto letal e uma das drogas mais nocivas ao organismo.
Mesmo com todos esses riscos o número de fumantes no mundo gira em trono de 1,2 bilhão. Alguns países como o Brasil têm adotados medidas para que o número de fumantes reduza. No país a propaganda foi banida, o imposto é alto, os maços trazem alertas de saúde e a nomenclatura “light”, ideal para capturar ex-fumantes, foi proibida. Em Salvador a lei 7.651/09 proíbe o consumo de cigarros, cigarrilhas, charutos ou de qualquer outro produto fumígero, derivado ou não do tabaco, no âmbito do Município, em ambientes de uso coletivo, públicos ou privados. O valor da multa para quem não cumprir a lei deve variar de R$ 200 e R$ 2 milhões tanto para o fumante quanto para os donos dos estabelecimentos.
Porém, todas essas ações antifumo disputam com a imagem que o cigarro criou de um produto elegante. A história do sucesso de marketing do cigarro é antiga. O tabaco foi um dos primeiros produtos a desenvolver marcas comerciais e na primeira metade do século 18 embalagens e slogans começaram a ser criadas para o produto. Quando as mulheres entraram no mercado de trabalho após a Primeira Guerra Mundial foi lançada uma marca especificamente só pra elas, a Malboro (aquela que tempos depois associava o cigarro à macheza do Comboy), e logo o glamuor foi associado às baforadas femininas. Os personagens hollywoodianos sensuais e fumantes e as cenas envolvendo sexo e o ato de fumar foi o que faltava para o cigarro ser visto como um produto de poder e sensual. Isso fez com que a indústria do cigarro conseguisse angariar milhões de novos fumantes todos os anos, principalmente os jovens e as mulheres. Por isso que, mesmo com medidas antifumo criadas, o número de fumantes continua alto. A Indústria do cigarro é uma das mais poderosas do mundo: são consumidos no planeta em torno de 5,5 trilhões de unidades por ano. Na Brasil a Souza Cruz é a empresa privada que mais contribui com a receita fiscal no país, pois o cigarro é o produto industrializado que mais paga imposto por aqui.
A solução para reduzir o número de fumantes drasticamente parecer ser uma série de medidas sincrônicas com leis antifumo em locais fechados, aumento do valor do produto com a ampliação dos impostos para o cigarro, medidas contra o contrabando que hoje corresponde a um terço dos cigarros vendidos, o banimento das propagandas e a redução de exibições glamurosas do cigarro em filmes e novelas. Porém, acredito que políticas proibitivas devem ser combatidas por mais que o fumo cause danos à saúde. Senão, prejudicial por prejudicial, deveríamos então proibir também o consumo de produtos da MC´donalds, Burger King, Coca-cola etc. O homem tem o livre arbítrio para tomar suas decisões e hoje o cigarro não está mais revestido de ilusões de marketing. Muito pelo contrário, a associação dele com o câncer está se tornando mais próxima do que com o prazer, poder e sedução. E se o mundo inteiro resolvesse proibir o consumo de cigarros algumas milhões de vidas poderiam ser poupadas. Porém, o 1 bilhão de fumantes entrariam na ilegalidade e com esse número alto de usuários a clandestinidade e traficantes que sairiam ganhando.
Comecei a fumar porque vi meus pais e ídolos fumarem, mas crianças e adolescentes passam por esse processo de projeção seja ao fumar ou beber ou o que for. Desprovidos dos ritos antigos de transição para a vida adulta, jovens das sociedades contemporâneas têm utilizados de diversas substâncias, inclusive o tabaco, para representar essa passagem.
7 comments Julho 21, 2009
Todo mundo pensa em deixar um planeta melhor para nossos filhos… Quando é que pensarão em deixar filhos melhores para o nosso planeta?

Todo mundo pensa em deixar um planeta melhor para nossos filhos.
Quando é que pensarão em deixar filhos melhores para o nosso planeta?
9 comments Julho 14, 2009
Manter-se

Procurar o procedimento correto, a linha reta por si e para tudo. Saber todas as condutas, caminhar com solidez, passo a passo, sendo quem se é acima de tudo. Caminhar com os pés de quem se é, estar pisando por si mesmo e ninguém mais. Ter em mente o caminho, o traçado de onde se quer chegar. Traçar sempre os próprios objetivos que nos levam além do que possamos simplesmente ser, sendo quem somos sem nos esquecer, daquilo que nos torna.
Ser quem se é, nada mais, nada menos. Ouvir a pulsação de cada instante do que traçamos e manter-se firme e reto. Tudo o que queremos é o que somos. O que somos nos mantém unidos dentro de nós. Estamos além do olhar que nos colocam. Estamos dentro do que sempre quisemos e nunca conseguimos antes expressar.
Fiéis com o que somos, com quem somos e muito além. Impecáveis com cada movimento. Impecáveis em cada parte nossa. Nosso procedimento é nossa conduta. O respeito para com tudo é como o respeito para com nossos objetivos. Nosso sarcasmo a tudo denuncia. E nos centra dentro daquilo que temos a certeza. Cada detalhe cuidado. Cada pedaço de nossa vida em nossas mãos. Saber o que se fazer. Tocar nossos horizontes, tocando além dos limites.
A solidez se torna quem somos. Somos o olhar fixo da janela, olhamos a tudo que existe de forma correta. Não projetamos mais. Não esperamos nada de ninguém. Tudo segue seu fluxo. Esquecemos-nos do que não é. O que foi e nunca teve importância. Estamos além de nos machucar, não estamos mais submetidos ao que achamos que somos. Não mantemos mais aparências. Estamos além do que pensamos que poderíamos ser. Compreendemos nossos passos. Nossos passos são nossos objetivos. Aqui estamos observando os obstáculos que irão nos levar além.
Os sentidos são formados. E os sentidos vão se desvanecendo e tomando um contorno muito além do esperado. Não existe nada a esperar. Os sentidos explicam, dão respostas e deixam de ter sentidos. Tudo se transmuta e gira na eterna espiral que nos leva ao centro da eternidade.
Mantendo-se. Tornando-se. Deixando-se. Compreendendo-se. Desfazendo-se. Vivendo-se. Tornando-se.
Mantendo-se. Tornando-se. Deixando-se. Compreendendo-se. Desfazendo-se. Vivendo-se. Tornando-se.
Texto de Marcelo Brasil
1 comment Julho 13, 2009
Em Breve Revista Contexto
No mundo das novas e mais democráticas formas de comunicação a Revista Contexto nasce como uma necessidade de um grupo de estudantes de jornalismo de mostrar sua responsabilidade social, aptidão com a notícia e a oportunidade de experimentar, ainda na faculdade, o trato do cotidiano de um jornalista. De forma independente, os colunistas se intercalam entre a informação e a opinião, pois iniciar um projeto editorial é um trabalho árduo, penoso e que requer, principalmente, respeito com os leitores e ética.
A Revista Contexto disponibilizará para os seus leitores a opinião dos colunistas a cerca dos fatos relevantes do Brasil e do mundo, notícias na sessão Plantão e imagem da semana no Observatório. As imagens também podem ser enviadas por nossos leitores através do email jornalismovirtual@hotmail.com.
A equipe de Colunistas idealiza que a Contexto torne-se mais um canal para a expressão de pensamentos e participação dos leitores através dos comentários. Pois, visualizamos que as novas comunicações na era da informação precisam ampliar o diálogo, transparência e o livre pensar. Por isso, mensalmente também publicaremos textos enviados pelos leitores para fazer da Revista Contexto nossa.
4 comments Julho 9, 2009
O triste fim do diploma para jornalistas

Acredito que já tinha aptidão para jornalismo desde pequena. Quando fui prestar vestibular sabia que queria ser jornalista, embora não soubesse muita coisa sobre o exercício. Como a vida não é linear, demorou uns anos, mas finalmente iniciei a faculdade.
Se quando era mais nova não tinha conhecimento apurado da profissão – e achava que somente era preciso gostar de ler e escrever – ao entrar na faculdade percebi a seriedade e importância da profissão para a sociedade. Foi lá que aprendi a fazer leads, textos informativos, textos opinativos, pautas e, principalmente, aprendi sobre o Código de Ética dos Jornalistas. São técnicas que não se aprendem do dia para noite. E para ser bem utilizadas, além de talento, dom e boa escrita, necessitam de comprometimento com a notícia e responsabilidade social. Itens que os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) estão por derrubar junto com o diploma.
O STF, no último dia 17, não só tornou inconstitucional a obrigatoriedade de um curso formal para o exercício da profissão como a comparou com a culinária. De acordo com os ministros, o jornalismo é uma atividade que não precisa de escolaridade nem conhecimento técnico. Uma decepção para mim e meus colegas. Declarar que para ser jornalista não é necessário nenhum requisito de ensino superior e que pessoas sem formação escolar podem obter o registro desqualifica estudantes, professores, profissionais e a própria imprensa brasileira. Porém, alguns representantes dos meios de comunicação comemoraram a decisão, principalmente o Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no Estado de São Paulo (Sertesp) e a Associação Nacional dos Jornais (ANJ). A decisão, claramente, favorece as empresas de comunicação e não aos profissionais e nem a sociedade brasileira.
Para justificar o fim da exigência do diploma os relatores do STF, representantes do Sertersp e da ANJ se apegam no argumento de que essa obrigatoriedade é uma herança da ditadura militar por meio do decreto-lei 972/69 e que fere os artigos 5º e 220 da Constituição Federal, que tratam da liberdade de manifestação do pensamento e da informação. Contudo, é válido ressaltar que nos anos posteriores ao período militar o diploma garantiu aos profissionais um maior aperfeiçoamento e padrão cultural e ajudou no desenvolvimento das redações no Brasil. Num país onde o ensino fundamental e médio são uma merda, como pode uma profissão que requer técnicas para entrevistar, editar, reportar, fazer perfil, editar bloco de notícias, baixar uma página e, principalmente, de ética para não destruir a vida de uma pessoa em algumas linhas não exigir um curso específico? É obvio que esses conceitos acadêmicos não isenta a profissão de possuir maus jornalistas. Assim também como uma formação acadêmica não inviabiliza a formação de péssimos advogados, médicos e relatores do STF (para quem não lembra, o presidente do STF, o ministro Gilmar Mendes, foi o mesmo que concedeu dois habeas corpos ao banqueiro Daniel Dantas).
Outra. É uma falácia a justificativa de que a obrigatoriedade do diploma é um artifício contra a liberdade de manifestação do pensamento, pois para o exercício do jornalismo é um dever ético a exclusão da opinião do jornalista. Aprendemos na faculdade que para quem está diante de uma notícia o que interessa é o que como, onde, quando, quem e por que aconteceu o fato. Para a emissão de opiniões existem as colunas e seções especializadas que agregam profissionais de diversas áreas que se expressam livremente. São espaços que admitem o trabalho de colaboradores sem formação em jornalismo.
Também é questionado que as faculdade de jornalismo do país estão defasadas e não estão formando profissionais aptos para trabalhar no mundo das novas formas de comunicação. Muitos cursos estão obsoletos no Brasil, mas não é simplesmente eliminando-os que as coisas vão melhorar. O Ministério da Educação tem que ser mais rigoroso com a grade curricular dos cursos e fiscalizar as inúmeras faculdades particulares que são abertas todos os dias. É bem possível que com a desvalorização do curso de jornalismo questões como imparcialidade, ética, e influência da mídia na sociedade tornem-se menosprezadas e vejamos o sensacionalismo dominar de vez os jornais, rádios e tevês nacionais.
O Brasil é um dos poucos países que mantém a requisição do diploma para exercer a profissão, mas é também aqui que as leis permitem que políticos sejam donos de diversos meios de comunicação. No nosso país vemos uma em cada três rádios concedidas na mão de políticos. Agora, com as empresas livres para contratar até analfabeto, veremos em pouco tempo nas redações do Brasil – principalmente no interior do país- uma superlotação de cabos eleitorais, parentes, amigos, amantes, partidários, jagunços que estarão lá não para exercer o direito à informação e liberdade de expressão que tanto o STF prega, mas para arquitetar a permanência no poder e manutenção dos interesses partidários de seus proprietários.
Nossos ministros e políticos desejam, e estão por conseguir, uma imprensa controlada para não precisarem processar jornalistas que os criticam.
24 comments Junho 30, 2009
A não-pessoa Michael Jackson

O fim de Michael Jackson é triste como toda derrota da especie humana. Penso nele num lugar comum, numa criança que não cresceu, num homem que foi se transformando em mulher e um negro que tentou ser branco, entre tantos mistérios da alma humana.
Era um músico e um cantor de talento raro, próximo da genialidade. Mudou nossa forma de cantar e de dançar.
Mas também era um monstro que se tornou a própria vítima, uma doença que não parava de crescer.
Já deformado, tornou-se um pai que não conseguiu ser filho e um truque poético que se tornou pura forma, todo artifício. Uma não-pessoa, uma não-identidade, uma não-história. Era a representação da representação.
A anti-natureza de batom e lantejoulas, avaliada em muitos milhões de dólares.
Se a sua melhor música foi produzida na infância, o auto-retrato encontra-se em Thriller, onde é o lobisomen assustador e a mocinha assustada ao mesmo tempo.
Morto aos 50 anos, Michael Jackson foi tudo e nada. Fez maldades cruéis, dignas de contos de fadas.
Deixou a impressão de que nunca teve direito a própria liberdade nem a própria vida.
Ele se foi sem ter sido, quando se tornara estátua de cera, objeto, menos que lembrança.
*Paulo Moreira Leite é colunista da Resvista Época
4 comments Junho 26, 2009
Ah, o amor…

Embora – até a presente data – esteja solteiríssima, curtindo somente minhas paixões repentinas, beijos expontâneos e muitos impulsos libidinosos, estou mais em clima de amor e dia dos namorados que noiva no altar.
Ah, o amor… Eu quero um amor que me ature nas minhas TPMs e quando tiver de mal humor. Que satisfaça minhas vontades e meus mimos também. Que me veja chorar, que ouça todos os meus anseios e suporte minhas eternas crises de identidade. E depois disso tudo ainda ache que eu sou a mulher mais linda do mundo, mesmo chorando, com TPM, mimada e mal-humorada.
Meu amor tem que me botar para dormir, me cobrir se fizer frio e saber cantar minhas músicas favoritas. Tem que fazer sexo bem feito e, principalmente, buscar sincronia com minha energia sexual…ui! Tem que me fazer rir e deixar eu rir da cara dele. Tem que me admitir livre, não me cobrar nada e saber ter compaixão com meu ciúme. Tem que verbalizar diariamente o seu amor por mim e não ter meias-palavras, “talvez”, “quem sabe”.
Tem quer SER: cúmplice dos meios devaneios, das minhas loucuras, das minhas putarias, das minhas bebedeiras. Tem que me acompanhar no pôr-do-sol e respeitar os meus momentos de silêncios profundos e minhas vontades de ficar só. Deve ser alguém que me tenha como prioridade, que seja meu amigo e tenha críticas construtivas. Que leia todas as coisas que escrevo e admire-as.
Tem que ser alguém que participe do meu universo espiritual e o respeite. Que ache lindo eu ficar descalça em uma formatura. Tem que ser alguém que me acolha e tenha sensibilidade para perceber quando não estou bem. Que seja presente, mas saiba me dar o gosto da saudade. Que me ligue no meio da tarde, que me presenteie sem data especial, que me surpreenda, que viaje comigo pelo Capão e me leve para os meus locais favoritos.
Esse amor tem que me desejar e demostrar com o olhar, com a mão, com a boca, com todo o corpo, com gemidos, sussurros, mordidas, apertos ou o que a criatividade lhe permitir. Tem que ser criativo, gostar de cores e filmes. Tem que apreciar tanto um jantar romântico em um super restaurante como um dia simples em casa. Quero alguém que não faça jogo, que saiba de meus medos. Que me deixe voar por todos os ares e seja meu aeroporto.
E, principalmente, quero alguém que acredite no amor e, não podendo ser tudo isso, venha sem vergonha na cara como toda obra-de-arte que é uma existência.
10 comments Junho 5, 2009

