Archive for Fevereiro, 2009

Carnaval: a alegoria de um povo

Margareth Menezes em seu Os Mascarados disse que aquele bloco era a alegoria do carnaval de Salvador. Provavelmente ela estava se referindo à diversidade, alegria, cores etc. Contudo, tendo em vista que a corda do bloco era duas vezes menor do que a quantidade de foliões, que alguém só não foi pisoteado por obra divina, que o número de foliões era simetricamente proporcional a de ladrão, para mim ela quis dizer que aquele bloco representava o verdadeiro carnaval de salvador em seu caos, assaltos e violência.

Eu não sei se estou ficando velha, careta ou consciente, mas há muito tempo o carnaval de participação popular e alegria acabou. Todo esse marketing de maior festa popular do planeta só tem a única e exclusiva razão dos blocos e camarotes adquirir patrocínios milionários para agradar os esperados 650 mil turistas. E ainda há quem caia na velha história de que o dinheiro gasto por esse povo dinamiza a economia, cria novos empregos e blá, blá, blá. Os “empregos” criados para a população baiana são de catadores de latinha ou cordeiro, pois os novos postos de trabalhos em hotéis, camarotes e restaurantes são exercidos por profissionais de fora, principalmente do Rio de Janeiro e São Paulo (alguma novidade?). O Governo do Estado da Bahia cedeu 45 milhões para a festa, só que boa parte do lucro desse investimento vai para empresas como Skol, Petrobrás, Itaú, Nova Schin e Nextel (principais patrocinadores) que disponibilizaram juntas apenas 10,79 milhões.

Porém, nada irrita mais do que a hipocrisia dos artistas locais (vide Ivete Sangalo, Bel Marques, Cláudia Leitte, Durval Lelis e Cia). Como baianos cientes da verdadeira condição econômica que vive a população, o melhor recado que eles conseguem mandar é “um abraço para essa rapaziada esperta” e coisas bregas do tipo. Nem foram capazes de dizer uma palavra sequer acerca da campanha realizada pela Prefeitura Municipal de Salvador contra o trabalho infantil no carnaval. A campanha pretende combater principalmente a exploração sexual infantil, porém é perceptível a quantidade de crianças e adolescente catando latas ou trabalhando em barracas para ajudar seus pais. É visível a deficiência educacional na cidade que contribui para a estagnação e, conseqüentemente, exposição das crianças em tais situações. Em 2006 quando Carlinhos Brown chamou publicamente a atenção do ministro da cultura, Gilberto Gil, pelo descaso com a educação na Bahia recebeu críticas ferrenhas e no ano seguinte declarou que “o carnaval se vende por pouco”.

Me parece que talvez o maior investidor do carnaval dessa cidade seja a ignorância e a miséria. Provavelmente se o povo tivesse um pouco mais de educação e acesso à cultura (ensaio do Psirico não é cultura, diga-se de passagem) não gastaria seus míseros 415,00 reais na manutenção de um acervo musical que vai de “perereca pra frente” a “rala a chana no asfalto”.

8 comments Fevereiro 21, 2009

Somos humanos porque não temos asas para voar

Nesse momento lembro de um amigo, Ricardo Pinto, que há uns 4 anos atrás fez um desenho pra mim (e que até agora não terminou) intitulado “Somos humanos porque não temos asas para voar”. O desenho era uma mulher (eu, diga-se de passagem) caindo numa paisagem com borboletas e coisas voadoras. Não lembro muito bem até porque vi uma vez só e isso tem anos, mas a frase sempre permaneceu em minha mente. Sempre lembro dela quando percebo que por mais que eu tente me expandir dependo de meus pés e não de asas.
Ultimamente tenho pensado muito sobre minha vida, sobre o caminho que tenho trilhado e daqueles que ainda não andei (alguns por medo e outro por falta de oportunidade). E uma das coisas que tem me tirado umas boas noites de sono é a minha vida profissional e esse blog. Não especificamente o blog, mas do que quero de jornalismo. Será que vale a pena ter um trabalho em uma outra área e estudar comunicação social? Ou pedir demissão e me jogar totalmente na área é a coisa ideal a ser feita? Só que aí vem a consciência e diz que eu sou um exemplo: trabalho de segunda a sexta (às vezes aos sábados para ganhar hora extra), 40 horas na semana, ou seja, 22 dias no mês. Porém, como não ser um exemplo quando 99%  das pessoas do meu círculo social são vagais (o 1% sou eu )? E isso quer dizer que elas não trabalham, não estudam, fumam maconha o dia todo e depois vão ver o pôr -do-sol na barra em plena segunda-feira. É obvio que eu me torno uma referência, pelo menos para as mães delas: pago TODAS as minhas contas e sou careta (não fumo, sou contra o aborto e não faço sexo grupal).
Daí percebi que tenho algumas opções:

1° (Situação atual) – Continuar trabalhando onde estou, receber relativamente bem numa cidade onde 37,4% dos habitantes vivem com renda inferior a meio salário mínimo (R$ 207,50), permanecer no curso de jornalismo e me virar nos 30 para estar em alguns projetos.
Ponto positivo: nada vai mudar, mas vou garantir minha independência financeira.
Ponto negativo: apesar de garantir minha independência financeira, nada vai mudar.

2° – Sair do trabalho, me jogar totalmente em jornalismo e agradar alguns amigos que acham que eu tenho talento demais para estar cuidando da água da cidade.
Ponto positivo: vou ter mais tempo para mim, para cuidar da minha alma, para ler uma pilha de livros que não tive tempo, para finalmente assistir As Brumas de Avalon, para fuçar o orkut dos outros e dar andamento a alguns projetos pessoais, incluindo esse blog, um fanzine ainda sem nome e outras coisas mirabolantes para fazer com meus amigos vagais-maconheiros-criativos.
Ponto negativo: Um estágio na área de comunicação paga em média 500,00 reais. Como vou pagar a faculdade? Como vou comprar roupas? Como vou comer?

3° – Ser porra nenhuma. As pessoas mais inteligentes, criativas e interessantes seguiram esse rumo e eu estou começando a perceber que o problema não é qual direcionamento que eu irei dar na minha profissão. A questão é que eu não quero ter uma. Apesar de ser responsável com o que faço, eu não nasci para trabalhar, não nasci para acordar 7 horas da manhã, não nasci para estudar 5 matérias por semestre, ter que fazer provas e seminários.
Ponto Positivo: ver o pôr-do-sol com meus amigos maconheiros em plena segunda-feira.
Ponto negativo: Ter que fazer vaquinha para comprar uma garrafa de vinho São Jorge.

O resultado de tanta instabilidade foi que semestre retrasado perdi em uma matéria por falta e nesse só não aconteceu a mesma coisa porque alguns professores faltaram mais do que eu. Eu me matriculei num curso de designer gráfico que custou o olho da cara, me pergunte qual a cor do meu professor. Você sabe? Nem eu. Eu pego o trabalho 8h, mas só chego 8h30min apesar de passar apenas 10 minutos no ônibus e só não inventei uma doença porque realmente estou com um principio de gastrite. Então, alguns atestados reais têm me salvado. Bendita gastrite! Vale ressaltar que eu tirei o apêndice em dezembro, quero ver só se vou ter que tirar a porra toda.

Nessas circunstâncias tirei algumas conclusões:
1. Ter que reencarnar no século XXI é fim de carreira. Para mim já estava bom demais resolver todos meus Karmas no século XVIII em uma casa na Irlanda com um jardim enorme e um cavalo branco, sem telefone, sem Internet, sem essa pressão insuportável de ter milhares de amiguxos, sem vizinho ouvindo Calypso nas alturas e sem camelô me chamando de gostosa na entrada da Lapa.
2. A mulher mais imbecil que existe no mundo foi aquela que decidiu que mulher tinha que sair da cozinha e trabalhar. Agora quem paga o pato sou eu. Alguém me perguntou se eu estava afim de igualdade sexual? Alguém me perguntou se eu queria ser bem sucedida profissionalmente aos 30 mas viver em um inferno particular porque sou divorciada, neurótica, depressiva, mal amada, tenho que cuidar dos filhos sozinha e ainda do ex-marido?
3. Pra que merda eu inventei de pagar TODAS as minhas contas e ser careta (não fumo, sou contra o aborto e não faço sexo grupal)? Se eu fosse vagal que nem 99% das pessoas do meu círculo social (o 1% sou eu ) – e isso quer dizer que eles não trabalham, não estudam, fumam maconha o dia todo e depois vão ver o pôr-do-sol na barra em plena segunda-feira – com certeza não estaria nessa crise de identidade porque bolar o beck seria mais importante.

16 comments Fevereiro 9, 2009

Pela sua essência

Em tempos onde as pessoas precisam ser notadas e buscam através de roupas, acessórios e penteados os holofotes do mundo, agir em coerência com sua essência é o maior ato de transgressão do século XXI. E uma das crueldades desse momento é transformar os que estão em plenitude com sua identidade em seres banais. O silêncio, a discrição, o refletir, a observação foram consideradas características triviais do comportamento humano, pois a alta competividade da nossa sociedade induz para que os seres humanos estimulem a exposição e a ousadia. Pois bem, ousar é bastar em si mesmo, é ser você mesmo, é ouvir a si mesmo e ser livre. Porém, não essa liberdade escandalosa e de atos negligentes e programados mas aquela liberdade de entregar-se ao mundo com seu ser e não com a sua máscara.

“A verdadeira coragem está em fazermos sem testemunha o que seríamos capazes de fazer diante de todo mundo.” François La Rochefoucauld

Namastê

 

1 comment Fevereiro 3, 2009


Clique abaixo e assine para receber atualizações

Pessoas online: BlogBlogs.Com.Br

Estatísticas do Site

Notícias.

TOP POSTS

Antítese

trio eletrico em A cantora Ivete Sangalo está…
Júlio Horta em Todo mundo pensa em deixar um …
letras Ivete Sangalo em A cantora Ivete Sangalo está…
igor em Onde há fumaça tem cigarr…
GISSELY em O conceito equivocado que se t…

Mofo

Jornalistas F2J

Oxigenar

Para os olhos

Queria que fosse meu!

Sites

Nuvem

Ascensão blog Blogosfera blogs Brasil Brasileiro candidatos cidadania cientistas Cinema Cinema independete concurso Criança cura Células-tronco democracia descaso educação eleições existência. Família filhos Fuga Jornalismo liberdade loucura mentalidade metas morte normalidade Padre Carli pobre pobreza Queda Recorde regras religião Salvador Sociedade Son Araújo Tropa de Elite Vida Violência voto Ícaro

——————

http://img44.imageshack.us/img44/1112/revistaantimateria.jpg