Sou feia mas tô na moda
Maio 17, 2009

Toda expressão artística vem com a carga pessoal do seu criador. O funk se trata de uma manifestação social das favelas, um produto rentável que passou por diversas fases. Começou inspirado no gênero dos anos 80, Miami Bass, e atravessou a fase dos bailes violentos chamados de “Lado A/Lado B”. O cenário mudou quando os bailes do prazer, que tinham como atração a dança e as músicas sexuais, se tornaram mais evidente. É uma música feita por pobres, pretos e favelados para eles próprios ouvirem, uma identificação. Mas o que faz com que músicas com letras como “Tira onda pra elas é viver de sacanagem / os gatinhos até gosta / mas tu sabe como é / se eles pagam motel / elas faz o que eles quer” se expanda por um país preconceituoso e (falso) moralista?
“Falou em funk, vê logo: Cidade de Deus, os favelados.”
Quando se trata de música o que importa é a sensação e enquanto música que desperta a libido e transborda a sensação de prazer torna-se universal, desce o morro e chega ao asfalto – coisa parecida aconteceu com o Axemusic que veio do nordeste (a imagem da pobreza, falta de cultura e pessoas destituídas de valor social). Porém, embora haja o consumo assíduo do estilo musical pela classe média e alta do Brasil, não há o reconhecimento enquanto uma manifestação artística nem a preocupação com os problemas sociais daquela população que também são denunciados nas músicas. Porém, quando a mulher toma o tom imperativo da palavra em músicas erotizadas os preconceitos coletivos se manifestam ainda mais.
“Sou feia mais tô na moda, tô podendo pagar motel pros homens isso é que mais importante.”
É sobre esse universo do funk que o documentário “Sou feia mas tô na moda” trata. O vídeo de Denise Garcia foi lançado em 2005 em Londres e tem como foco principal as funkeiras e a sua representação social enquanto mulheres que expressam as suas vontades. O filme tem como título o nome de uma das músicas de Tati Quebra-barraco e personagem principal Deize Tigrona, conhecida como Deise da Injeção, dona de músicas sexuais como “Injeção”, “Senta no poste” e “Papo virtual”.
“São feministas sem cartilhas”
Funkeiras como Tati e Deize são mulheres que moram em comunidades aonde as leis, principalmente de proteção às mulheres, assistência social ou médica, não chegam. Contudo, permeia pela mídia a imagem de mulheres sem pudor e que se colocam como objeto sexual. No documentário elas questionam porque a veiculação de mulheres despidas no carnaval e na televisão não causam polêmicas como elas. A reposta é simples: A exibição de mulheres nuas no carnaval do Rio de Janeiro ou nas novelas é direcionada para turistas e empresários que vendem a imagem de uma cidade-paraíso e afrodisíaca. Por isso não há discriminação para elas. Ali comprem seu papel: dançam nuas, atraem turistas e, principalmente, não manifestam nenhum discurso. Já as funkeiras estão reinventando os seus papéis como mulher e através das músicas reivindicam igualdade. Muitas vezes, através da música, auxiliam na conscientização de jovens que vivem na favela, alertando para as doenças sexualmente transmissíveis ou uma gravidez indesejada, como na música “Ginecologista”, do grupo Juliana e as Fogosas. E assim diz uma das moradoras da Cidade de Deus no documentário: “As mulé antigamente, antigamente antes de surgir o funk, ia numa boa, aceitava, ‘vamos no meu prédio?’, vai e assim tava indo, agora surgino o funk, não. Especialmente a música da Tati, que está dizendo muita coisa, alertando as mulheres”
O filme é direto ao expor que as mulheres do funk cantam músicas para revidar o machismo, disseminado também no próprio funk como músicas que se referem às mulheres como “cachorras” e “popozudas” – em um país que tem um dos maiores índices de violência contra a mulher. É preciso perceber que o discurso de liberalização sexual feminina no funk influenciou uma postura menos submissa das mulheres que vivem naquele núcleo social e lutam pela igualdade de direitos, principalmente sexuais.
Entry Filed under: Sociedade. Tags: cidade de deus, deise tigrosa, discrimanação, erotismo, favela, funk, juliana e as fogosas, música, mulher, preconceito, Sociedade, tati quebra-barraco.
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1.
Camila Calmon | Maio 18, 2009 at 3:30 pm
sou baiana por jus soli e sanguinis, desço com a mão no tabaco, esfrego a xana no asfalto, tomo madeirada e pode socar que eu gosto. Mas, mas, mas não vem me dizer que eu vaso, porque quem vasa é canhão!
.
bjs Lole, bom texto!
2.
Luiz | Maio 21, 2009 at 3:42 am
Quero destacar alguns pontos.
Para mim o funk como qualquer outro estilo musical é uma forma de expressar cultura. A música é como o rádio, alcança pessoas similares em locais e em momentos diferentes, criando uma rede de ouvintes que sinpatizam com as letras e, muitas vezes se identificam com os protestos, anuncios, diversão ou sentidos dúbios contidos nas letras e melodias.
Outro fato seria do feminismo empírico. O ato de usar o imperativo nas músicas mostra caráter forte e convicto das autoras e interpretes do funk nacional. A mulher deixa o lugar de submissa para possar de madame do marido.
Acho que não existem pessoas destituídas de valores sociais. Lembrei das aulas que tivemos falando dos Estudos Culturais onde se destaca o estudo e a valorização das culturas “baixas, ordinárias”
Acho que o funk é uma expressão de demarcação limitada, muitas vezes, por uma midia preconceituosa e restrita. Censura ainda existe se torna visível nas análises de casos como esse. Porque o funk recuou no asfalto e se voltou maciçamente para a comunidade?
3.
x-ratho | Maio 21, 2009 at 2:42 pm
adoro funk! muito mais os cantados por mulheres…
pra refletir:
“Só me dava porrada!
E partia pra farra!
Eu ficava sozinha,esperando você
Eu gritava e chorava que nem uma maluca…
Valeu muito obrigado mas agora virei puta!
Valeu muito obrigado mas virei Puta!
se uma tapinha não doi..
eu falo pra você…
segura esse chifre quero ver tu se foder!
segura esse chifre quero ver tu se foder!
segurra esse chifre-chifre-chifre…
Eu lavava passava…
tú não dava valor
agora que eu sou puta voce quer falar de amor.
ago-agora que eu sou PUTA-PUTA-PUTA”
valeska popozuda é deewa!
ela e tati reinam…
rala tcheca, cúduro o caralhoo… que falar putaria que seja em alto e bom som, de quem é a buceta hein filadaputa?? ops me exaltei…