O triste fim do diploma para jornalistas
Junho 30, 2009

Acredito que já tinha aptidão para jornalismo desde pequena. Quando fui prestar vestibular sabia que queria ser jornalista, embora não soubesse muita coisa sobre o exercício. Como a vida não é linear, demorou uns anos, mas finalmente iniciei a faculdade.
Se quando era mais nova não tinha conhecimento apurado da profissão – e achava que somente era preciso gostar de ler e escrever – ao entrar na faculdade percebi a seriedade e importância da profissão para a sociedade. Foi lá que aprendi a fazer leads, textos informativos, textos opinativos, pautas e, principalmente, aprendi sobre o Código de Ética dos Jornalistas. São técnicas que não se aprendem do dia para noite. E para ser bem utilizadas, além de talento, dom e boa escrita, necessitam de comprometimento com a notícia e responsabilidade social. Itens que os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) estão por derrubar junto com o diploma.
O STF, no último dia 17, não só tornou inconstitucional a obrigatoriedade de um curso formal para o exercício da profissão como a comparou com a culinária. De acordo com os ministros, o jornalismo é uma atividade que não precisa de escolaridade nem conhecimento técnico. Uma decepção para mim e meus colegas. Declarar que para ser jornalista não é necessário nenhum requisito de ensino superior e que pessoas sem formação escolar podem obter o registro desqualifica estudantes, professores, profissionais e a própria imprensa brasileira. Porém, alguns representantes dos meios de comunicação comemoraram a decisão, principalmente o Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no Estado de São Paulo (Sertesp) e a Associação Nacional dos Jornais (ANJ). A decisão, claramente, favorece as empresas de comunicação e não aos profissionais e nem a sociedade brasileira.
Para justificar o fim da exigência do diploma os relatores do STF, representantes do Sertersp e da ANJ se apegam no argumento de que essa obrigatoriedade é uma herança da ditadura militar por meio do decreto-lei 972/69 e que fere os artigos 5º e 220 da Constituição Federal, que tratam da liberdade de manifestação do pensamento e da informação. Contudo, é válido ressaltar que nos anos posteriores ao período militar o diploma garantiu aos profissionais um maior aperfeiçoamento e padrão cultural e ajudou no desenvolvimento das redações no Brasil. Num país onde o ensino fundamental e médio são uma merda, como pode uma profissão que requer técnicas para entrevistar, editar, reportar, fazer perfil, editar bloco de notícias, baixar uma página e, principalmente, de ética para não destruir a vida de uma pessoa em algumas linhas não exigir um curso específico? É obvio que esses conceitos acadêmicos não isenta a profissão de possuir maus jornalistas. Assim também como uma formação acadêmica não inviabiliza a formação de péssimos advogados, médicos e relatores do STF (para quem não lembra, o presidente do STF, o ministro Gilmar Mendes, foi o mesmo que concedeu dois habeas corpos ao banqueiro Daniel Dantas).
Outra. É uma falácia a justificativa de que a obrigatoriedade do diploma é um artifício contra a liberdade de manifestação do pensamento, pois para o exercício do jornalismo é um dever ético a exclusão da opinião do jornalista. Aprendemos na faculdade que para quem está diante de uma notícia o que interessa é o que como, onde, quando, quem e por que aconteceu o fato. Para a emissão de opiniões existem as colunas e seções especializadas que agregam profissionais de diversas áreas que se expressam livremente. São espaços que admitem o trabalho de colaboradores sem formação em jornalismo.
Também é questionado que as faculdade de jornalismo do país estão defasadas e não estão formando profissionais aptos para trabalhar no mundo das novas formas de comunicação. Muitos cursos estão obsoletos no Brasil, mas não é simplesmente eliminando-os que as coisas vão melhorar. O Ministério da Educação tem que ser mais rigoroso com a grade curricular dos cursos e fiscalizar as inúmeras faculdades particulares que são abertas todos os dias. É bem possível que com a desvalorização do curso de jornalismo questões como imparcialidade, ética, e influência da mídia na sociedade tornem-se menosprezadas e vejamos o sensacionalismo dominar de vez os jornais, rádios e tevês nacionais.
O Brasil é um dos poucos países que mantém a requisição do diploma para exercer a profissão, mas é também aqui que as leis permitem que políticos sejam donos de diversos meios de comunicação. No nosso país vemos uma em cada três rádios concedidas na mão de políticos. Agora, com as empresas livres para contratar até analfabeto, veremos em pouco tempo nas redações do Brasil – principalmente no interior do país- uma superlotação de cabos eleitorais, parentes, amigos, amantes, partidários, jagunços que estarão lá não para exercer o direito à informação e liberdade de expressão que tanto o STF prega, mas para arquitetar a permanência no poder e manutenção dos interesses partidários de seus proprietários.
Nossos ministros e políticos desejam, e estão por conseguir, uma imprensa controlada para não precisarem processar jornalistas que os criticam.
Entry Filed under: Jornalismo, Política. Tags: ética, diploma, faculdade, Jornalismo, jornalista, matéria, meios de comunicação, reportagem, supremo tribunal federal.
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1.
Fábio | Junho 30, 2009 at 2:43 pm
se tivessemos juizes, politicos, policiais e principalmente jornalistas como vc o mundo seria um lugar melhor
2.
Jair Junior | Junho 30, 2009 at 3:06 pm
MUITO BOM LORE,
ARTIGO BEM FEITO E EMBASADO….A IMPRENSA É CONHECIDA COMO O QUARTO PODER E NÃO É NECESSÁRIO TER UM DIPLOMA PARA EXECER TAMANHA ENVERGADURA??
PARA QUE MAIS SERÁ PRECISO?
3.
ANTONIA | Junho 30, 2009 at 3:18 pm
ESSA DECISÃO FAZ PARTE DE MAIS UM GOLPE CONTRA A EDUCAÇÃO NO PAÍS. QUANDO LI A NOTÍCIA FIQUEI MUITO CONFUSA, INCLUSSÍVE PENSEI EM DESISTIR DO CURSO DE JORNALISMO. NO ENTANTO PERCEBIR QUE SE TOMASSE ESSA ATITUDE ESTARIA CONTRIBUINDO DIRETAMENTE, COM ESSE ABSURDO.
TEMOS QUE NOS FORTALEZER E BUSCAR CADA VEZ MAIS CONHECIMENTO, OU SEMPRE FAREMOS PARTE DOS “INVSSÍVEIS” AOS AOLHOS DAQUELE QUE POSSUI O PODER, DE CRIAR E DERUBAR LEIS QUE NA MAIORIA DAS VEZES SERVEM APENAS PARA BENEFICIO DE PEQUENOS GRUPOS.
4.
Nethe Damasceno | Junho 30, 2009 at 3:43 pm
LORE,
É de salutar importância o tema desenvolvido sabiamente por vc. A formação superior no Brasil passou e passa por avanços e mudanças profundas. Portanto não se pode dizer que foi a exigência da formação superior dos jornalistas que modificou a qualidade do ensino, é apenas jogo de retórica. É simplório afirmar com segurança que temos um jornalismo de qualidade no Brasil? Se temos, ela serve a quais interesses?
Ninguém vai querer contratar um jornalista que não tenha o mínimo de habilidade para a função. Acho que o que se pretende com o fim da exigência é que as pessoas que tenham o talento para a escrita, o que não é meu caso, possam exercer esse direito.
Portanto coleguinhas….continuemos nossa luta.
Parabéns minina inteligente!! rsrsrrs
Nethe Damasceno
5.
João Paulo Zaccarias | Junho 30, 2009 at 3:51 pm
Que texto lúcido! Tenho absoluta certeza que a não obrigatoriedade do diploma de jornalismo será porta aberta ao nepotismo. O STJ pôs fim a uma conquista de 40 anos dos jornalistas e da sociedade.
Lastimável!
6.
Jair Junior | Junho 30, 2009 at 4:21 pm
Circula na internet vídeo que revela tremenda ignorância – fruto de uma busca constante, muitas vezes irresponsável, do sensacionalismo – de uma rede de televisão boliviana, de nome Pat, que reporta fotos da série americana Lost como imagens captadas por um passageiro a bordo do voo AF 447, que caiu no Atlântico no começo deste mês. Lost é um seriado americano, filmado em Oahu, no Havaí, e conta a história de 48 sobreviventes de um acidente aéreo numa ilha do Oceano Pacífico. Informações do site Bahia Notícias
“Isso irá acontecer muito daqui para frente”
7.
Julio César | Junho 30, 2009 at 7:36 pm
bom texto…como sempre vc explana de maneira objetiva e inteligente os seus argumentos. É lamentável como no Brasil, principalmente na política, as coisas andam na contra mão. Os meios de comunicação no país valorizam a exploração da vida de celebridades. Temo q a partir de agora as informações q chegam até a nos sejam confiaveis.
bom texto
saudades.
8.
Camila Calmon | Junho 30, 2009 at 11:13 pm
desculpe-me a ignorância, mas já é fato?! Se sim, descobri que caminho seguir: rumo ao jornalismo, uhuuuuuuuuuu!
Beijos e fica com Deus
rs
9.
isa, prima | Julho 1, 2009 at 12:04 am
camila vc se supera!! kkkkkkkkkkkkkkkkk
o seu texto q eu mais gostei lole, q orgulho!!!!
10.
Lisiane | Julho 1, 2009 at 10:17 am
Lore me desculpe,mas eu concordo com o STJ. Estou desistindo de jornalismo pra voltar ao curso de engenharia, rs.
Seu texto tá muito legal,siga em frente!
Sucesso na carreira!!
beeijos
11.
Alex Ferreira | Julho 2, 2009 at 3:51 pm
Lori
Demora ler este blog e me surpreende o que você escreve. De fato, tu és uma jornalista nata, (rsrsrsrsr) e se desistirmos ocorrerá com o jornalismo o mesmo que houve com o ensino público nesta desgraça chamado Brasil. Fizeram o país entrar em um processo de analfabetização coletiva.
Recentemente no site do senado federal o filho da puta – graças a democracia posso me reportar a este bostético assim – do José Sarney que a culpa do que está acontecendo com ele é da imprensa, logo, querida Lisiane, eu discordo de você de dos merdas do STF. Simplesmente querem assassinar o jornalismo no Brasil.
12.
Alex Ferreira | Julho 2, 2009 at 4:05 pm
Lori
Demoro ler este blog e me surpreendo com o que você escreve, fico feliz. De fato, tu és uma jornalista nata, (rsrsrsrsr) e se desistirmos ocorrerá com o jornalismo o mesmo que houve com o ensino público nesta desgraça de nação chamada Brasil, que foi fazer o país entrar em um processo de analfabetização coletiva e gradativa. Quiseram propósitadamente desconstruir a consciência crítica que as escolas estimulavam.
O que me impressiona é que um dos ‘assassinos’ da profissão recentemente, no site do senado federal – o filho da puta – graças a democracia posso me reportar a este bostético assim, do José Sarney disse que a culpa do que está acontecendo com ele é da imprensa, logo, querida Lisiane, eu discordo de você de dos merdas do STF. Simplesmente querem assassinar o jornalismo no Brasil.
Espero que você não desista. .
Ps Sem querer postei um rascinho!!!!! DESCULPA.
13.
Cella | Julho 2, 2009 at 8:02 pm
É incrível ver onde nosso pais ta conseguindo chegar, esse povo que diz ” cuidar” do mesmo, cria leis,decretos, sem pensar nas consequencias que os traz..
Agora é desejar sorte para aqueles que passam 4 anos estudando.
14.
Marcos Sampaio | Julho 5, 2009 at 12:29 am
Algum de vocês já pararam para refletir se o que aprendem na faculdade é mesmo jornalismo? Ainda mais, me atrevo a pergunta a todos vocês: o que é jornalismo? Jornalismo não é apenas comunicação. Comunicação (cumunicar) não é apenas jornalismo. É uma pena que vivamos em um país arcádico, onde os valores sociais ainda são medidos por cargos, títulos, posição social… idiossincrasias típicas de uma sociedade provinciana e de um povo históricamente colonizado.
Gabriel Garcia Marques, Friedrich Engels, Karl Marx, Truman Capote, Voltaire, Zé Raimundo e tantos outro. Quem de vocês seria capaz de contrariar a capacidade jornalistica de todos esses nomes acima citados? Quem de vocês se concidera jornalista, quem de vocês nasceu para o jornalismo? Quantos de vocês no meio de uma centena se fazerá para o resto da vida jornalista? Se existir apenas um no meio de todos vocês, que responda essa pergunta com a convicção típica de um jornalista… com certeza saberá que não será menos jornalista por causa da falta de obrigatoriedade do diploma. Teve gente ai que falou de golpe na educação, outros que precisam de um diploma para exercer um poder (referindo-se a imprensa como quarto poder)… Realmente fica uma pergunta no ar: onde vai parar esse Brasil com opiniões que mais parecem colicas mestruais vindas logo de estudantes de jornalismo? Parafraseando o grande poeta e porra louco Cazuza: A burguesia ainda fede.
15.
Jair Junior | Julho 6, 2009 at 4:37 pm
Tudo que apreendi na faculdade é sim jornalismo Marcos!!! E jornalismo não é so escrever bem porque ja passeou nos livros dos melhores escritores. A principal ferramenta do jornalista é a interpretação (dos fatos), e isso, nenhum livro ensina. Jornalismo é 99% comunicação sim, o resto é artigo, opinião, que posso ou não concordar (aí sim, não necessita de diploma).
Não contrario a competência de ninguém, muito menos dos escritores-jornalistas citados por você, so acho o exemplo inoportuno, porque se todos que decidirem virar jornalistas da noite pro dia, for desse porte, não terá problema algum. Mas na verdade não é bem assim, posso em uma linha destruir a carreira de alguém ou de uma instituição, nesse mesmo blog citei um exemplo da busca incessante por um furo jornalistico de um site boliviano e muitos outros que com certeza viram sustenta a tese que o diploma não forma um bom jornalistico mas da todas as ferramentas, cabe ao bacharel exercer ou não.
Desda minha infância percebi uma aptidão para jornalismo, gostava em primeira mão, de contar o que ninguém sabia, as vezes aumentava ou inventava alguns dados para ganhar credibilidade, e fui crescendo e percebendo que fazia isso muito bem, comecei então a seguir repórteres (influenciado por meu pai) em matérias e entrevistas, ate finalmente cursar jornalismo, depois de esta no quinto semestre de Administração, foi um choque para min, ver logo no primeiro semestre, que quase tudo que apreendi (em português) no ensino médio, nada tinha haver com um bom texto jornalístico, à exemplo o preconceito linguístico.
Estou no quarto semestre e posso perceber a real importância do curso e pergunto para você como pode afirmar que o curso não forma jornalista se voce so fez o primeiro semestre?
Ao final do curso me considerarei preparado para exercer o jornalismo com esse diferencial que outros jornalistas, que por experiência de longos, anos atua em veículos de comunicação, não têm.
Não abandonarei meu curso e ainda pretendo me especializar em Jornalismo Cultural, porque entendo que estarei na contramão dos que querem fazer dos jornalistas copiadores de informações e não interpretadores das mesmas.
16.
Alexandro Ferreira | Julho 7, 2009 at 10:57 am
Os comentários devem ser dados sobre o texto de Lorena e não sobre o comentário da galera. Você se acha bastante competente para opinar e criticar de forma tão contundente as pessoas? Você deveria se resumir a si mesmo, se é que sabe fazer isso. Ninguém precisa de faculdade para ser jornalista, claro, porém você escreve assim como um paspalho, fazendo alusão a este triste acontecimento por que não está estudando, está fora da faculdade. Se você estivesse concluindo o curso e comessasse a ler nos editais de concursos que qualquer um pode ocupar a formação para a qual você estudou, talvez, quem sabe, tu penssasse diferente.
A sua visão sobre o jornalismo é muito romântica e o romantismo não sustenta nada, nostalgico jornalista. Você nem pode ser chamado de saudoso por que ainda não viveu nada, apenas sonha e, sonho não compra nada, distancia, isola e reprime.
17.
Marcos Sampaio | Julho 5, 2009 at 12:38 am
Esse texto foi escrito por um dos maiores jornalista do mundo.
Diplomas: curso de direito na faculade de Bogotá abandonado antes da conclusão.
Premio Nobel de Literatura e … ainda querem mais? Devem estar esperando onde ele estudou comunicação hein?
A melhor profissão do mundo
Gabriel García Márquez
Há uns cinqüenta anos não estavam na moda escolas de jornalismo. Aprendia-se nas redações, nas oficinas, no botequim do outro lado da rua, nas noitadas de sexta-feira. O jornal todo era uma fábrica que formava e informava sem equívocos e gerava opinião num ambiente de participação no qual a moral era conservada em seu lugar.
Não haviam sido instituídas as reuniões de pauta, mas às cinco da tarde, sem convocação oficial, todo mundo fazia uma pausa para descansar das tensões do dia e confluía num lugar qualquer da redação para tomar café. Era uma tertúlia aberta em que se discutiam a quente os temas de cada seção e se davam os toques finais na edição do dia seguinte. Os que não aprendiam naquelas cátedras ambulantes e apaixonadas de vinte e quatro horas diárias, ou os que se aborreciam de tanto falar da mesma coisa, era porque queriam ou acreditavam ser jornalistas, mas na realidade não o eram.
O jornal cabia então em três grandes seções: notícias, crônicas e reportagens, e notas editoriais. A seção mais delicada e de grande prestígio era a editorial. O cargo mais desvalido era o de repórter, que tinha ao mesmo tempo a conotação de aprendiz e de ajudante de pedreiro. O tempo e a profissão mesma demonstraram que o sistema nervoso do jornalismo circula na realidade em sentido contrário. Dou fé: aos 19 anos, sendo o pior dos estudantes de direito, comecei minha carreira como redator de notas editoriais e fui subindo pouco a pouco e com muito trabalho pelos degraus das diferentes seções, até o nível máximo de repórter raso.
A prática da profissão, ela própria, impunha a necessidade de se formar uma base cultural, e o ambiente de trabalho se encarregava de incentivar essa formação. A leitura era um vício profissional. Os autodidatas costumam ser ávidos e rápidos, e os daquele tempo o fomos de sobra para seguir abrindo caminho na vida para a melhor profissão do mundo – como nós a chamávamos. Alberto Lleras Camargo, que foi sempre jornalista e duas vezes presidente da Colômbia, não tinha sequer o curso secundário.
A criação posterior de escolas de jornalismo foi uma reação escolástica contra o fato consumado de que o ofício carecia de respaldo acadêmico. Agora as escolas existem não apenas para a imprensa escrita como para todos os meios inventados e por inventar. Mas em sua expansão varreram até o nome humilde que o ofício teve desde suas origens no século XV, e que agora não é mais jornalismo, mas Ciências da Comunicação ou Comunicação Social.
O resultado não é, em geral, alentador. Os jovens que saem desiludidos das escolas, com a vida pela frente, parecem desvinculados da realidade e de seus problemas vitais, e um afã de protagonismo prima sobre a vocação e as aptidões naturais. E em especial sobre as duas condições mais importantes: a criatividade e a prática.
Em sua maioria, os formados chegam com deficiências flagrantes, têm graves problemas de gramática e ortografia, e dificuldades para uma compreensão reflexiva dos textos. Alguns se gabam de poder ler de trás para frente um documento secreto no gabinete de um ministro, de gravar diálogos fortuitos sem prevenir o interlocutor, ou de usar como notícia uma conversa que de antemão se combinara confidencial.
O mais grave é que tais atentados contra a ética obedecem a uma noção intrépida da profissão, assumida conscientemente e orgulhosamente fundada na sacralização do furo a qualquer preço e acima de tudo. Seus autores não se comovem com a premissa de que a melhor notícia nem sempre é a que se dá primeiro, mas muitas vezes a que se dá melhor. Alguns, conscientes de suas deficiências, sentem-se fraudados pela faculdade onde estudaram e não lhes treme a voz quando culpam seus professores por não lhes terem inculcado as virtudes que agora lhes são requeridas, especialmente a curiosidade pela vida.
É certo que tais críticas valem para a educação geral, pervertida pela massificação de escolas que seguem a linha viciada do informativo ao invés do formativo. Mas no caso específico do jornalismo parece que, além disso, a profissão não conseguiu evoluir com a mesma velocidade que seus instrumentos e os jornalistas se extraviaram no labirinto de uma tecnologia disparada sem controle em direção ao futuro.
Quer dizer: as empresas empenharam-se a fundo na concorrência feroz da modernização material e deixaram para depois a formação de sua infantaria e os mecanismos de participação que no passado fortaleciam o espírito profissional. As redações são laboratórios assépticos para navegantes solitários, onde parece mais fácil comunicar-se com os fenômenos siderais do que com o coração dos leitores. A desumanização é galopante.
Não é fácil aceitar que o esplendor tecnológico e a vertigem das comunicações, que tanto desejávamos em nossos tempos, tenham servido para antecipar e agravar a agonia cotidiana do horário de fechamento.
Os principiantes queixam-se de que os editores lhes concedem três horas para uma tarefa que na hora da verdade é impossível em menos de seis, que lhes encomendam material para duas colunas e na hora da verdade lhes concedem apenas meia coluna, e no pânico do fechamento ninguém tem tempo nem ânimo para lhes explicar por que, e menos ainda para lhes dizer uma palavra de consolo.
“Nem sequer nos repreendem”, diz um repórter novato ansioso por ter comunicação direta com seus chefes. Nada: o editor, que antes era um paizão sábio e compassivo, mal tem forças e tempo para sobreviver ele mesmo ao cativeiro da tecnologia.
A pressa e a restrição de espaço, creio, minimizaram a reportagem, que sempre tivemos na conta de gênero mais brilhante, mas que é também o que requer mais tempo, mais investigação, mais reflexão e um domínio certeiro da arte de escrever. É, na realidade, a reconstituição minuciosa e verídica do fato. Quer dizer: a notícia completa, tal como sucedeu na realidade, para que o leitor a conheça como se tivesse estado no local dos acontecimentos.
O gravador é culpado pela glorificação viciosa da entrevista. O rádio e a televisão, por sua própria natureza, converteram-na em gênero supremo, mas também a imprensa escrita parece compartilhar a idéia equivocada de que a voz da verdade não é tanto a do jornalista que viu como a do entrevistado que declarou. Para muitos redatores de jornais, a transcrição é a prova de fogo: confundem o som das palavras, tropeçam na semântica, naufragam na ortografia e morrem de enfarte com a sintaxe.
Talvez a solução seja voltar ao velho bloco de anotações, para que o jornalista vá editando com sua inteligência à medida que escuta, e restitua o gravador a sua categoria verdadeira, que é a de testemunho inquestionável. De todo modo, é um consolo supor que muitas das transgressões da ética, e outras tantas que aviltam e envergonham o jornalismo de hoje, nem sempre se devem à imoralidade, mas igualmente à falta de domínio do ofício.
Talvez a desgraça das faculdades de Comunicação Social seja ensinar muitas coisas úteis para a profissão, porém muito pouco da profissão propriamente dita. Claro que devem persistir em seus programas humanísticos, embora menos ambiciosos e peremptórios, para ajudar a constituir a base cultural que os alunos não trazem do curso secundário.
Entretanto, toda a formação deve se sustentar em três vigas mestras: a prioridade das aptidões e das vocações, a certeza de que a investigação não é uma especialidade dentro da profissão, mas que todo jornalismo deve ser investigativo por definição, e a consciência de que a ética não é uma condição ocasional, e sim que deve acompanhar sempre o jornalismo, como o zumbido acompanha o besouro.
O objetivo final deveria ser o retorno ao sistema primário de ensino em oficinas práticas formadas por pequenos grupos, com um aproveitamento crítico das experiências históricas, e em seu marco original de serviço público. Quer dizer: resgatar para a aprendizagem o espírito de tertúlia das cinco da tarde.
Um grupo de jornalistas independentes estamos tratando de fazê-lo, em Cartagena de Indias, para toda a América Latina, com um sistema de oficinas experimentais e itinerantes que leva o nome nada modesto de Fundação do Novo Jornalismo Ibero-Americano. É uma experiência piloto com jornalistas novos para trabalhar em alguma especialidade – reportagem, edição, entrevistas de rádio e televisão e tantas outras – sob a direção de um veterano da profissão.
A mídia faria bem em apoiar essa operação de resgate. Seja em suas redações, seja com cenários construídos intencionalmente, como os simuladores aéreos que reproduzem todos os incidentes de vôo, para que os estudantes aprendam a lidar com desastres antes que os encontrem de verdade atravessados em seu caminho. Porque o jornalismo é uma paixão insaciável que só se pode digerir e humanizar mediante a confrontação descarnada com a realidade.
Quem não sofreu essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida, não pode imaginá-la. Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo do furo, a demolição moral do fracasso, não pode sequer conceber o que são. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte.
18.
Alexandro Ferreira | Julho 7, 2009 at 11:34 am
Marcos percebo que o que ocorre com você deixar de pensar que pessoas despreparadas pode submeter a sociedade a erros crassos. A faculdade não elimina esses erros, mas certa medida de precaução ou conhecimento empírico associado a experiência acadêmica não prejudica ninguém, inclusive você.
19.
Alexandro Ferreira | Julho 7, 2009 at 11:41 am
Marcos percebo que o que ocorre com você é deixar de pensar que pessoas despreparadas pode submeter a sociedade a erros crassos. Até mesmo você pode cometer um erro desse! A faculdade não elimina esses erros, mas certa medida de precaução e conhecimento empírico associado a experiência acadêmica não prejudica ninguém, inclusive você.
20.
Marcos Freitas | Julho 8, 2009 at 11:01 pm
Não sou contra a decisão do STF. Creio que assim como nas outras profissões que não há necessidade de um diploma para exerce-la, o mercado separará os bons profissionais.
21.
Marcos Sampaio | Julho 9, 2009 at 4:18 pm
Primeiramente, tenho o direito de comentar e que eu quizer, já que defendo a liberdade de expressão. Ao contrario de vocês que preferiram crucificar minha condição de não estudante expondo opniões sobre a minha vida particular como se o que eu escrevi fosse o reflexo da minha situação de pobre coitado. Devem ter aprendido isso também na faculdade? Segundo, Jornalismo naquela época, nunca foi brincadeira nem relatos pessoais, estudos mais aprofundados provam isso, principalmente porque a base de todo jornalismo moderno está lá naquela época. Terceiro, nunca deixei de acreditar na importância da experiência acadêmica em qualquer área do conhecimento, e aos do meu trato sabem muito bem disso. Quarto, Jornalismo é sim escrever bem, e vai muito além das respostinhas básicas que se aprende na faculdade: quando, por que, onde e etc… Quinto, pessoas despreparadas vamos ter sempre, formadas ou não. Sexto, é pueril a fragilidade de vocês diante da menor das criticas. Setimo, erros crassos ou não, independe de formação academicia já que erros são peculiaridades nata da condição humana. Oitavo, onde foi que eu falei que o conhecimento empirico associado ao acadêmico perjudica alguém? Nono, os exemplos que eu citei são sim ímportantes, já que a propria academia os estudam até hoje. Décimo, existe uma aula na faculdade chamada Analise do Discurso. Não sei se perceberam, mas meu texto é muito mais reflexivo que afirmativo – por isso tantas interrogações no final das frases. Que não queiram responder tais perguntas tudo bem, mas o verdadeiro intuito é levar ao pensar. Decimo primeiro, está se fazendo muito barulho por nada. Decimo segundo, minha visão é sim romantica e não enche barriga deveras. Algumas coisa vocês tem razão. Decimo terceiro, não sabia que era tão mal julgado só por achar que as coisas devem mudar. Decimo qaurto, não mudadrei de ideia pois ninguém aculpará os lugares que resolver oculpar na minha vida. MAs se o estão com medo de dispultar vagasde concursos e empregos com pessoas não-formadas, é porque dentro de vocês, no fundo ainda deve existir um sentimento de medo e duvida(será que estamos bem preparados realmente?) Decimo quinto, os sonhos não reprimem o isolam. Não deveriam pensar assim, já que foram hoamens sonhadores que sempre mudaram a nossa realidade. Decimo sexto, não acredito que a interpretação seja a maior ferramenta do jornalismo, ja que interpretar é um ato subjetivo e passivo de relatividade, ao contrario da analise. Decimo setimo, jornalismo é 100% cominicar, o quenão significa que seja 100% de comunicação. Decimo oitavo, pessoas que estudam de verdade não estão entregue a sorte (puro sensacionalismo). Decimo nono. é proibido proibir. Vigesimo, não possome resumir em mim mesmo, já que deixo claro que todas as minhas perguntas sõa claramente abertas e as minhas afirmativas estão susetiveis de criticas ja que não sou perfeito. Vigesimo primeiro, vivemos em uma “democracia” – se alguns não sabem disso – então não é uma questão de se sentir muito competente para opinar sobre uma coisa, é simplesmente o exercicio de um direito.
Vigesimo segundo, é pena que por não ser academico não possa opinar sobre a academia, ja que vive muito pouco essa experiência. Como se experiência fosso medida simplesmente por tempo e não também por intensidade. Vigesimo terceiro, ninguém destroi nada exercendo o jornlismo, isso depende de varios fatores, não simplesmente do fato de ser jornalista, e alem do mais a responsabilidade de tal profissional vai além de fazer nascer ou morrer- e ainda o romantico sou eu? Bem não quero tornar meu direito de resposta infinito. Só pretendi esclarecer os fatos acima citados. Espero as criticas para que debates saudaveis possam progredir. Mas quero ressaltar apenas um pedido: que nos proximos comentarios sobre o que eu escrevo não minimizem a minh condição de não estudante ou de contrario a opinião de vocês, soa como preconceito. Agradeço a oportunidade a idealizadora do blog de manter a liberdade aqui nesse espaço virtual. Até a proxima!!!
22.
Alexandro Ferreira | Julho 17, 2009 at 9:52 pm
Caro colega, tenho um apreço por ti muito grande e não pretendi de maneira alguma ofender-te quando citei o fato de você não estar estudando. Quero que compreenda que se, tu estivesses em situação de formando, talvez sua opinião fosse outra. Ninguém proibiu você de escrever coisa alguma. Quando compreenderás que com a contudência de seus comentários as pessoas podem reagir de formas diversas. Cada um pode ser visto naquilo que escreve, e a sua escrita não é de quem quer expor idéais racionais é de quem, com irritação clara, quer impor pensamentos a pessoas que não enxergam a profissão como o mesmo romantismo. Saiba que eu já gostava da profissão e por sua causa sou tão romântico quanto, porém não sou impositor.
Sabe a expressão palmatória do mundo, lembra!?
Se o que escrevi soou como preconceito em algum momento me desculpe!
Alex
23.
Bruno Castro | Agosto 5, 2009 at 11:54 am
Gostaria de usar essa imagem em nosso portal para ilustrar um artigo sobre a questão da formação acadêmica para jornalista. Podemos usar? Como dou créditos para o autor?
Entre em contato comigo, por favor.
Abraço,
Bruno Castro.
24.
Gabriel | Agosto 10, 2009 at 12:13 am
também achei triste…