Setembro 18, 2009

Há alguns anos atrás minha família com sua enxurrada de primos, tios e tias se reunia aos domingos na casa de meus avós. Não havia necessidade de marcar horário ou confirmar presença no almoço. Era certo a presença de todos lá. Eu, que morava dois andares acima da casa de meus avós, somente precisava descer as escadas. Tudo era um atrativo além dos dotes culinários de minha avó. Até os jogos de futebol pareciam ter mais emoção para meus tios quando assistidos lá.
Naquela época, o jornal impresso era o meio mais confiável e disponível de obter informação. Aos domingos, quando o jornal vinha preenchido de diversos cadernos, se formava uma fila familiar atrás dele. Tinha aqueles que queriam determinados cadernos. E outros que faziam questão do jornal inteiro. Era uma ansiedade para que chegasse a vez. E penso que como eu devia haver outros que desejavam que alguém desse prioridade a algum programa televisivo ou uma conversa. Assim, poderia ser logo aproveitado um dos hábitos que desfruto desde cedo: a leitura. Contudo, a leitura, que é uma abstração solitária, às vezes tornava-se nesse dia um processo coletivo. Pois, diante de uma notícia quente, quentíssima era impossível deter o processo de leitura coletiva. E todos se emparelhavam para conseguir ler um pedaçinho do texto e quando não havia jeito alguém fazia a leitura em voz alta.
Eram outros tempos. Os textos eram mais elaborados, pois não havia a crise no universo impresso. Havia espaço para diversos colunistas, diversas formações de pensar. A construção do cotidiano, arte que os jornalistas se detêm, era baseado nos fatos relevantes para a sociedade e cidadãos. Como disse o jornalista Nirlando Beirão em uma palestra recente em Salvador “O jornalismo brasileiro tornou-se histérico e não histórico”. Recentemente uma professora subiu em palco onde uma banda de pagode apresentava-se e dançou o seu hit “todo enfiado”. Filmada por diversos celulares sua performance foi parar no site Youtube e na capa de um jornal local.
Além de sentir saudades dos domingos em família, sinto falta dos jornais. Aqueles jornais que mesmo com seus defeitos, mesmo com seus partidarismo, não sofriam de crise de identidade. Que na guerra pela notícia não especulavam, nem faziam sensacionalismo da vida alheia.
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1.
Tátila | Setembro 18, 2009 at 9:37 pm
Acredito que sua posição é altamente pertinente no que se refere ao estusiamo que se propagava pela leitura, seja ela de que ordem for. Mas também acredito que os jornais ainda tem seu lugar e os próprios números afirmam isso, principalmete com o recente aumento na receita dos jornais e o crescimento nas tiragens.
O que ocorre no mundo é uma multiplicidade de informação, tudo é muito solto e creio que o jornal ainda é um dos principais meios de comunicação que “amarram” e dão consistência as informãções, além é claro de transitar pelos diversos gêneros de produção jornalística.
2.
Flávio Cirilo | Setembro 18, 2009 at 9:38 pm
Além de está passando por uma crise de identidade, o jornalismo brasileiro, atualmente, é uma máquina de reprodução. Há algum tempo atrás as pessoas tinham a oportunidade de analisar matérias e formar a sua posição ideológica, pois os jornais apresentavam uma diversidade de opinião política e econômica. Hoje, o que vemos na maioria dos jornais, é uma notícia “copiada” de outro veículo.
3.
Fabíola Lima | Setembro 24, 2009 at 6:18 pm
Consegui me ver na casa de sua vó. Entretanto quando a outra saudade a que você se refere, penso que engana-se quem acredite em um jornal apenas informativo, eles sempre deram sua pitadinha e de certo, continuaram entrando em brechas do nosso consciente, formando opiniões. Quanto a produção, o mercado consome melhor as capsulas informativas, assim o jornalismo literário fica para o seleto público. E não falo com aceitação, mas com realidade. Você: `… mesmo seus partidarismo, não sofriam de crise de identidade. Que na guerra pela notícia não especulavam, nem faziam sensacionalismo da vida alheia. ` A diferença está nas influencias da época no valor e consciência coletiva. É isso. Bjs…
4.
Luana Matos | Setembro 30, 2009 at 12:52 pm
É a primeira vez que leio seu blog. Gostei muito e concordo com sua opinião em relação aos jornais. Hoje em dia é muito melhor ir nos vários jornais virtuais que temo e ir em busca das informações, pois, foi-se o tempo em que estas vinham até nós!
5.
celiamota | Outubro 11, 2009 at 11:32 pm
Jornalismo literário, também fui a essa palestra e acredito qdo dizem que esse é o futuro do jornal impresso. Notícia resumida, factual ou mal estruturada temos na internet, o leitor de jornal quer algo a mais. A crise nesse segmento é real, tanto que jornais centenários tem fechado as portas nos EUA. Por aqui teremos que fazer algo para não tomarmos o mesmo caminho.
Meu sonho é trabalhar na revista que os palestrantes idealizaram.
Já tava sentindo falta dos seus textos!
6.
celiamota | Outubro 11, 2009 at 11:58 pm
Ahh, só te convidar para visitar meus blogs:
celiamota.blogspot.com
celiamota.wordpress.com